Celebrado no dia 14 de novembro, o Dia Mundial e Nacional do Diabetes é uma data criada pelo Federação Internacional de Diabetes (IDF) e pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para reforçar a conscientização a respeito da doença, principalmente para evidenciar a importância da prevenção. Este ano, a campanha tem o tema “Diabetes e o ambiente de trabalho” e por meio da iniciativa #WorldDiabetesDay promove ações em 95 países com mais de 410 atividades em todo mundo, inclusive no Brasil.
De acordo com os dados do World Diabetes Day, no mundo, há mais de 589 milhões de pessoas vivendo com diabetes[1] e no Brasil esse número pode ser aproximadamente 20 milhões[2]. Considerando esse cenário e a data em questão, relembramos a nova atualização da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) que traz importantes mudanças das diretrizes para o manejo do diabetes tipo 2 (DM2) e impactam diretamente a prática clínica.
Atualização da Diretriz Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD)
A nova diretriz publicada em 2025, trouxe mudanças significativas para o manejo do diabetes tipo 2 que ampliam a abordagem tradicional centrada apenas no controle glicêmico. Agora, o tratamento é guiado pela estratificação de risco cardiovascular e renal. Além disso, há um foco maior na perda de peso como meta terapêutica, com possibilidade de remissão do DM2, e na ampliação do uso do monitoramento contínuo da glicose (CGM), mesmo para pacientes não tratados com insulina. A diretriz também reforça a individualização das metas glicêmicas para idosos, considerando funcionalidade e cognição, e apresenta protocolos hospitalares e perioperatórios mais estruturados, incluindo cetonemia capilar e suspensão programada de medicamentos. Outro destaque é a inclusão de aspectos antes pouco abordados, como qualidade do sono, comportamento sedentário e estratégias não-farmacológicas, tornando a prática mais personalizada ao estilo de vida de cada paciente.
Em suma, a atualização aborda os principais tópicos no que diz respeito a:
Diagnóstico [3]
Rastreamento recomendado a partir dos 35 anos ou antes, em adultos com sobrepeso/obesidade e pelo menos um fator de risco adicional.
- História de doença cardiovascular
- Hipertensão arterial
- HDL abaixo de 35 mg/dl
- Triglicerídeos acima de 250 mg/dl
- Síndrome de ovários policísticos
- Acantose nigricans
- Sedentarismo
- Pré-diabetes em exame prévio
- Diabetes gestacional prévio
- FINDRISC alto ou muito alto (acesse pelo link: https://diabetes.org.br/risco-dm2/)
Obesidade e doença cardiovascular [4]
A nova diretriz da SBD para tratamento da obesidade e prevenção cardiovascular recomenda avaliar todos os adultos com sobrepeso ou obesidade quanto ao risco de doenças ateroscleróticas cardiovasculares cardíacas e insuficiência cardíaca em todos os indivíduos acima de 18 anos, com o objetivo de orientar o tratamento da obesidade. Além disso, acrescenta a recomendação do uso do escore de risco PREVENT para a avaliação do risco cardiovascular. A perda de peso também teve destaque nessa diretriz, com metas conforme aspectos clínicos dos pacientes. Neste contexto, o uso de medicações para tratamento da obesidade e diabetes, como os agonistas de GLP-1 e inibidores da SGLT2 ganham protagonismo neste perfil de pacientes.
Manejo da terapia antidiabética no DM2 [5]
Nos últimos anos o tratamento do diabetes tipo 2 evoluiu de uma abordagem glucocêntrica (focada na glicemia) para uma abordagem mais ampla e que contempla a avaliação de benefícios cardiorrenais e o controle da obesidade, além do controle glicêmico. Desta forma, a avaliação do risco cardiovascular, do IMC (índice de massa corporal), da hemoglobina glicosilada e função renal devem ser realizadas já no diagnóstico para definição do melhor tratamento a ser instituído para cada paciente, o que ressalta a importância da individualização no tratamento do diabetes, buscando reduzir complicações a longo prazo.
Depressão no diabetes [6]
A depressão é até três vezes mais prevalente em pessoas com diabetes e está associada a pior controle glicêmico, maior risco de complicações macrovasculares e mortalidade.
Recomenda rastreamento rotineiro com perguntas diretas sobre o humor, ou através de instrumentos validados para pacientes com diabetes (como PHQ-9, IBD e HADS). No caso de suspeita de depressão, recomenda-se o encaminhamento para o psiquiatra, para início do tratamento adequado. É recomendado também avaliar o risco de suicídio, tendo em vista que portadores de diabetes têm risco 1,6 a 3,6 vezes maior em comparação com a população geral. Deve-se ter especial atenção à adesão ao tratamento (que geralmente está reduzida em pacientes com depressão) e a escolha de antidepressivos com menor tendência ao ganho de peso e que podem interferir no controle do diabetes.
Tratamento de osteoporose no paciente com diabetes [7]
O diabetes mellitus é um importante fator de risco independente para fraturas (vertebrais e não-vertebrais), e tem a influência de diversos fatores como a heterogeneidade da doença, tempo de diagnóstico, deteriorização da capacidade muscular, presença de complicações micro e macrovasculares e o tratamento utilizado para o controle glicêmico.
Neste contexto, recomenda-se avaliar o risco de fratura com o FRAX ajustado para diabetes em pacientes acima de 50 anos (homens ou mulheres), realizar densitometria óssea a partir dos 50 anos em pacientes com pelo menos um fator adicional de risco para fraturas.
Além disso, deve-se considerar a suplementação de vitamina D (1000 a 2000 UI/dia ou dose equivalente mensal), com o objetivo de atingir a meta de 30 ng/mL, para prevenção da osteoporose.
Nos pacientes com diabetes, o tratamento (medicamentoso ou não) deve ser instituído para diminuir o risco de fraturas e o tratamento do diabetes deve ser avaliado conforme risco e benefício nestes pacientes.
Diabete no paciente idoso [8]
No paciente idoso com diabetes, a diretriz recomenda que o tratamento farmacológico seja semelhante ao de adultos jovens, em idosos funcionalmente independentes e que não apresentem síndromes geriátricas. Porém, em pacientes com perda de capacidade funcional, baixa performance cognitiva, multimorbidades, polifarmácia, sarcopenia e fragilidade, as metas glicêmicas devem ser mais flexíveis para evitar eventos adversos associados ao tratamento farmacológico, como hipoglicemias e resposta hiperglicêmica contra regulatória menos efetiva.
Para a escolha do melhor tratamento para estes pacientes, a recomendação é de definição da classe funcional antes do início da medicação, além dos parâmetros clínicos, para estabelecer metas glicêmicas adequadas e prevenção de hipoglicemia e de outras complicações pelo uso das medicações.
Imunização no paciente com diabetes [9]
O mal controle do diabetes leva à uma maior vulnerabilidade para doenças infecciosas, o que leva à hospitalizações prolongadas e maior mortalidade. Por este motivo, bom controle glicêmico melhora a resposta imunológica, a e a imunização deve ser parte integrada do cuidado multidisciplinar. Portanto, é recomendado aos pacientes com diabetes a vacinação para Influenza, COVID 19, vírus sincicial respiratório (VSR), herpes zoster, pneumocócicas e hepatite B, a atualização recomenda a priorização de vacinas como influenza, pneumocócica, hepatite B, herpes zoster e VSR, adaptando o esquema conforme idade, comorbidades e uso de imunossupressores, além das demais vacinas já preconizadas pela Sociedade Brasileira de Imunizações para a população geral..
Abordagem da doença renal diabética [10]
O diabetes é a causa mais comum de doença renal crônica, sendo responsável por 29% dos pacientes em diálise no Brasil. A doença renal do diabetes (DRD) está presente em 20-40% dos pacientes com diabetes e é um fator de risco independente para doença cardiovascular.
A recomendação é de que o primeiro rastreamento da DRD seja feito no momento do diagnóstico com amostra de urina, preferencialmente a primeira da manhã, para determinação da Razão Albumina Creatinina (RAC) e estimativa da Taxa de Filtração Glomerular estimada (TFGe) determinada pela creatinina sérica (pela equação CKD-EPI de 2021). Com base nestes valores, o tratamento e as metas precisam ser definidos, levando-se em conta o controle glicêmico, lipídico e pressórico, além do uso de medicações nefroprotetoras.
Uso de agonistas incretínicos e procedimentos com sedação ou anestesia [11]
Este foi um posicionamento conjunto da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA) e Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO)
Devido ao maior risco de estase gástrica e aspiração em pacientes que utilizam agonistas incretínicos, recomenda-se iniciar dieta líquida pelo menos 24 horas antes dos procedimentos com sedação ou anestesia geral, seguida de jejum de 8 a 12 horas. Além disso, quando disponível, a ultrassonografia gástrica point-of-care (POCUS) deve ser realizada para avaliar o resíduo gástrico, aumentando a segurança do procedimento.
Quanto ao uso das medicações, nos pacientes com esquema estável há mais de 12 semanas e sem fatores de risco para broncoaspiração, devem ser mantidas as doses e intervalos habituais antes do procedimento. No caso dos pacientes com fatores de risco para broncoaspiração, em fase de escalonamento de dose ou que ainda não atingiram estabilidade terapêutica há pelo menos 12 semanas, a recomendação é de suspensão dos agonistas de GLP-1 e coagonistas GLP-1/GIP por sete dias (para agonistas de longa duração) ou por um dia (para agonistas de curta duração).
Dia Mundial do Diabetes: uma oportunidade de conscientização
O Dia Mundial do Diabetes é uma oportunidade para reforçar a importância do controle glicêmico, da adesão ao tratamento e da prevenção de complicações. Com as novas diretrizes, é cada vez mais necessário que o paciente esteja atualizado sobre os principais sintomas e tratamentos da patologia, para apoiá-lo nessa jornada, iniciativas como a #SIMPLESMENTEFAÇA da EMS são importantes: elas apoiam o diagnóstico precoce e ajudam em toda a jornada de cuidado com a saúde do paciente.
Saiba mais em: https://site.emssaude.com/diabetes
Referências:
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INTERNATIONAL DIABETES FEDERATION. About World Diabetes Day. https://worlddiabetesday.org/about-wdd/. Acesso em: 11 nov. 2025.
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SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES. Brasil já tem cerca de 20 milhões de pessoas com diabetes. Disponível em: https://diabetes.org.br/brasil-ja-tem-cerca-de-20-milhoes-de-pessoas-com-diabetes/. Acesso em: 11 nov. 2025.
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Emerson Cestari Marino, Leandra Anália Freitas Negretto, Rogério Silicani Ribeiro, Denise Momesso, Alina Coutinho Rodrigues Feitosa, Marcos Tadashi Kakitani Toyoshima, Joaquim Custódio da Silva Junior, Sérgio Vencio, Marcio Weissheimer Lauria, João Roberto de Sá, Domingos A. Malerbi, Fernando Valente, Silmara A. O. Leite, Danillo Ewerton Oliveira Amaral, Gabriel Magalhães Nunes Guimarães, Plínio da Cunha Leal, Maristela Bueno Lopes, Luiz Carlos Bastos Salles, Liana Maria Torres de Araújo Azi, Amanda Gomes Fonseca, Lorena Ibiapina M. Carvalho, Francília Faloni Coelho, Bruno Halpern, Cynthia M. Valerio, Fabio R. Trujilho, Antonio Carlos Aguiar Brandão, Ruy Lyra e Marcello Bertoluci. Rastreamento e Controle da Hiperglicemia no Perioperatório – Posicionamento Conjunto da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA) e Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO). Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2025). DOI: 10.29327/5660187.2025-10 , ISBN: 978-65-5941-367-6.



