Celebrado em 1º de março, o Pulse Day é uma iniciativa internacional de conscientização sobre diferentes arritmias. Embora tradicionalmente associado à aferição da pressão arterial, o conceito de “pulso” amplia o debate para a detecção precoce de arritmias cardíacas, especialmente a fibrilação atrial (FA), uma condição com alto impacto em mortalidade.
Neste contexto, a data torna-se mais uma oportunidade para atualização científica e reforço de boas práticas clínicas, tanto para especialistas quanto para médicos não especialistas.
Arritmias cardíacas e fibrilação atrial (FA): panorama epidemiológico
As arritmias cardíacas correspondem a alterações na formação ou condução do impulso elétrico cardíaco, podendo variar de quadros benignos a situações com risco elevado de eventos tromboembólicos e morte súbita. A fibrilação atrial é a arritmia sustentada mais prevalente na prática clínica.
Estima-se que que o número de pacientes portadores de FA com idade superior a 55 anos será mais que o dobro em 2060.[1] A prevalência global esteja entre 1% e 2% da população adulta.
Além disso, a FA está associada a:
· Aumento de 5 vezes no risco de AVC;
· Maior incidência de insuficiência cardíaca;
· Aumento da mortalidade cardiovascular Dados discutidos pela Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas – SOBRAC reforçam o crescimento progressivo da prevalência no Brasil, impulsionado pelo envelhecimento populacional e pela elevada incidência de hipertensão, diabetes e obesidade.
Lacunas de percepção e necessidade de rastreio
O estudo PULSE Survey, conduzido pela European Heart Rhythm Association e publicado em 2025 na EP Europace, avaliou o nível de conhecimento e percepção da população sobre distúrbios do ritmo cardíaco em diferentes países.
Os resultados revelam variação no reconhecimento de sintomas associados a arritmias, incluindo palpitações e batimentos cardíacos irregulares, bem como diferenças na percepção das possíveis consequências clínicas dessas condições.
O estudo também descreve variabilidade na associação entre distúrbios do ritmo e risco de acidente vascular cerebral entre os respondentes.
Na discussão, os autores apontam a existência de lacunas no conhecimento público e diferenças na percepção da gravidade dos distúrbios do ritmo cardíaco, ressaltando a necessidade de iniciativas educativas e estratégias de conscientização mais estruturadas.
Atualizações recentes no manejo das arritmias (ESC 2024)
As recomendações mais recentes da European Society of Cardiology (ESC 2024) [4] reforçam mudanças importantes na abordagem da fibrilação atrial, com maior ênfase em estratificação dinâmica de risco, abordagem integrada e personalização terapêutica.
1. Estratificação de risco tromboembólico
A anticoagulação continua sendo pilar central na prevenção de AVC em pacientes com FA.
A ESC 2024 reforça:
· Avaliação sistemática do risco tromboembólico
· Reavaliação periódica do risco
· Preferência por anticoagulantes orais diretos (DOACs) na maioria dos pacientes elegíveis
· Consideração do risco hemorrágico como elemento modificável, não como motivo isolado para negar anticoagulação
A diretriz também enfatiza a necessidade de diferenciar FA clínica de episódios atriais detectados por dispositivos (AHRE/subclinical AF), alinhando-se às evidências recentes.
2. Individualização entre controle de ritmo e frequência
A ESC 2024 consolida o conceito de abordagem personalizada, considerando:
• Sintomatologia • Idade • Presença de cardiopatia estrutural • Disfunção ventricular • Comorbidades associadas • Carga de FA
Há reforço do conceito de controle precoce do ritmo em pacientes selecionados, especialmente aqueles com maior risco cardiovascular ou com início recente da arritmia.
A decisão deve ser compartilhada e contextualizada ao perfil clínico.
3. Ablação por cateter
A ablação é reconhecida como estratégia eficaz para:
· Pacientes sintomáticos
· Recorrência apesar de terapia farmacológica
· Seleção criteriosa em fases mais precoces da doença
A diretriz reforça o papel da ablação como opção válida não apenas para alívio sintomático, mas também dentro de estratégia mais ampla de controle da arritmia.
4. Integração com fatores de risco cardiovascular
A ESC 2024 reforça fortemente a abordagem integrada da FA, destacando que o manejo deve incluir:
• Controle rigoroso da hipertensão arterial • Redução de peso • Tratamento da apneia obstrutiva do sono • Controle glicêmico • Redução do consumo de álcool • Manejo da insuficiência cardíaca
Essa estratégia integrada está associada à redução de recorrência da FA e melhor prognóstico clínico.
Hipertensão arterial e arritmias: relação estrutural e funcional
A diretriz descreve a hipertensão como um dos principais determinantes estruturais do desenvolvimento da fibrilação atrial, associando-a a:
• Remodelamento atrial • Fibrose miocárdica • Alterações eletrofisiológicas
O controle adequado da pressão arterial é considerado componente essencial da estratégia de prevenção primária e secundária da FA.
Pulse Day: oportunidade para fortalecer a prevenção cardiovascular
O Pulse Day representa uma oportunidade estratégica para reforçar a importância do diagnóstico precoce das arritmias e da abordagem integrada do risco cardiovascular global.
A detecção de alterações no pulso pode ser o primeiro passo para prevenção de eventos como AVC e insuficiência cardíaca, especialmente em casos de fibrilação atrial assintomática.
Nesse contexto, iniciativas como a campanha “É de Coração”, da EMS, reforçam o compromisso com a conscientização, educação em saúde e apoio à jornada do cuidado cardiovascular, promovendo informação qualificada e alinhada às evidências científicas mais recentes.
Referências
M. A. Gunawardene et al. PULSE survey: Population Survey on Knowledge, Gaps and Perception of Heart Rhythm disorders—an initiative of the Scientific Initiatives Committee of the European Heart Rhythm Association. EP Europace, Volume 27, Issue 4, April 2025, euaf032, https://doi.org/10.1093/europace/euaf032
Nagpal AK, Pundkar A, Singh A, Gadkari C. Cardiac Arrhythmias and Their Management: An In-Depth Review of Current Practices and Emerging Therapies. Cureus. 2024 Aug 9;16(8):e66549. doi: 10.7759/cureus.66549.
Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas. Público Geral. Disponível em: https://sobrac.org/publico-geral/ Acesso em 16 de janeiro de 2026.
Van Gelder IC, Rienstra M, Bunting KV, Casado-Arroyo R, Caso V, Crijns HJGM, et al. 2024 ESC Guidelines for the management of atrial fibrillation developed in collaboration with the European Association for Cardio-Thoracic Surgery (EACTS). Eur Heart J. 2024;00:1–101. doi:10.1093/eurheartj/ehae176
Cintra FD, Pisani CF, Rezende AGS, Henz BD, Armaganijan LV, Pimentel M, Lopes RD, Nascimento TA, Lorga Filho AM, Albuquerque ALT, et al. Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250618


